(892) ?? Ben Josef al Faium (Saadia Gaon)
Saadia ben Yosef Gaon (882–942 d.C.) foi uma figura seminal no judaísmo rabínico durante o período da Califa Abássida, distinguindo-se como gaon (autoridade académica) da Academia de Sura, na Babilónia, filósofo, exegeta e polemista. A sua obra representa um marco fundamental na história intelectual judaica, sendo amplamente reconhecido como o primeiro grande erudito a escrever de forma extensiva em árabe judaico, integrando de modo sistemático a teologia judaica com a filosofia grega e a ciência árabe.
A sua contribuição mais perene, Kitāb al-Amānāt wa-al-Iʿtiqādāt (O Livro das Crenças e das Opiniões), constitui a primeira tentativa de construir um sistema filosófico-teológico judaico completo, fundamentando os princípios da revelação através da razão e do kalam judaico. Nesta obra, Saadia enfrentou o cepticismo e as heresias da sua época, defendendo a compatibilidade entre a fé revelada e a investigação racional.
Como exegeta, a sua tradução árabe da Bíblia Hebraica (conhecida como Tafsir) e os seus comentários revolucionaram o estudo das Escrituras, enfatizando o sentido literal (peshat) e a análise filológica, muitas vezes afastando-se das interpretações midráshicas tradicionais quando estas conflituavam com a razão. Esta abordagem metódica estendeu-se também ao domínio da língua hebraica, através de obras como o Agron, um dicionário e guia de poesia, e outros tratados de gramática e lexicografia que lançaram as bases para os estudos linguísticos hebraicos medievais.
A sua liderança não foi apenas intelectual, mas também comunitária. Saadia empenhou-se vigorosamente na defesa do judaísmo rabínico contra o desafio caraíta, que rejeitava a autoridade da Lei Oral. Um dos episódios mais célebres da sua carreira foi a sua intervenção decisiva na controvérsia do calendário com Ben Meir, na Palestina, que ameaçava criar um cisma na observância das festas judaicas em toda a diáspora. A sua nomeação para gaon de Sura, apesar da sua origem egípcia, testemunha o seu prestígio excecional.
A sua produção literária foi vastíssima, abrangendo praticamente todos os campos do saber judaico da época: desde halakhá (direito religioso), com respostas e monografias legais, até à liturgia, com a compilação de um sidur influente, e à poesia sinagogal. A sua influência moldou o pensamento judaico posterior, especialmente no Iémen e no sefardismo, e estabeleceu um paradigma duradouro de síntese entre fé, razão e tradição que caracterizaria grande parte da filosofia judaica medieval.