(1250) 🇩🇪 Asher ben Jehiel 

01-01-1250

Asher ben Jehiel (c. 1250/1259 – 1327): Uma Síntese Biográfica e Intelectual

Asher ben Jehiel (Hebraico: אשר בן יחיאל), também conhecido como Asher ben Yechiel, Rabbenu Asher ("Nosso Rabino Asher") ou pelo acrônimo hebraico Rosh (רא"ש), foi um eminente rabino e talmudista do século XIII e XIV, notabilizando-se principalmente por sua compilação de leis talmúdicas. A data de seu falecimento, conforme o calendário judaico, é comemorada no dia 9 de Cheshvan.

Trajetória Biográfica
Nascido provavelmente em Colônia, no Sacro Império Romano-Germânico, faleceu em Toledo, Espanha. Proveniente de uma linhagem renomada pela erudição e piedade, era filho do talmudista Yechiel e descendente de Rabbi Eliezer ben Nathan (RaABaN). Foi pai de oito filhos, dentre os quais se destacaram Jacob, autor da obra haláchica Arba'ah Turim, e Judah.

Em 1286, face à nova onda de perseguições aos judeus instigadas pelo Rei Rudolfo I, seu mestre, Rabbi Meir de Rothenburg, foi aprisionado ao tentar deixar a Alemanha. Embora Asher tenha reunido o resgate para sua libertação, Rabbi Meir recusou-a, temendo estabelecer um precedente perigoso para o sequestro de outros sábios. Subsequentemente, Asher assumiu a posição de seu mestre em Worms. No entanto, foi posteriormente forçado a emigrar, muito provavelmente para evitar a expropriação de sua fortuna pelas autoridades. Após deixar a Alemanha, estabeleceu-se inicialmente no sul da França e, por fim, em Toledo, onde assumiu o rabinato por recomendação de Rabbi Solomon ben Abraham Aderet (RaShBA). Testemunhos de seu filho Judah indicam que faleceu em condições de pobreza, em 1327 (5088 no calendário judaico). Relatos posteriores sugerem que seus filhos sobreviventes teriam perecido durante as perseguições na Espanha em 1392.

Contribuições e Posicionamentos Intelectuais
Rabbenu Asher era reconhecido por seu conhecimento talmúdico metódico e sistemático, destacando-se por sua habilidade em analisar e elucidar complexas discussões talmúdicas. Notabilizou-se por seu raciocínio jurídico independente, afirmando: "Não devemos ser guiados em nossas decisões pela admiração a grandes homens, e, no caso de uma lei não estar explicitamente declarada no Talmud, não somos obrigados a aceitá-la, mesmo que esteja baseada nas obras dos Geonim". Esta postura permitiu-lhe, por exemplo, decidir que a liturgia estabelecida pelos Geonim não estava sujeita à proibição talmúdica de alterar as orações.

Sua orientação intelectual era marcadamente contrária ao estudo do conhecimento secular, em especial da filosofia. Sustentava que a filosofia, fundada na investigação crítica, e a religião, baseada na tradição, eram "incapazes de harmonização". Agradecia a Deus por tê-lo poupado da influência da filosofia e orgulhava-se de não possuir conhecimento alheio à Torá. Chegou a tentar promulgar um decreto contra o estudo de disciplinas não judaicas. Essa postura limitou, em certa medida, sua influência sobre o judaísmo secular hispânico. Contudo, dentro dos círculos rabínicos, seu legado foi o de transplantar "o espírito talmúdico estrito e circunscrito da Alemanha para a Espanha", contribuindo para redirecionar o foco de parte dos judeus espanhóis da investigação secular para o estudo do Talmud.

Obras Principais
Sua obra mais célebre é o resumo da lei talmúdica, uma compilação que estabelece a halakha (lei judaica) final e prática, omitindo as discussões intermediárias e apresentando de forma concisa a decisão normativa. A obra exclui leis restritas à Terra de Israel (como as agrícolas e sacrificiais) e as porções agádicas (não legais) do Talmud. Seu filho, Jacob, compilou um índice de suas decisões, intitulado Piskei Ha-Rosh ("Decisões do Rosh"). Este trabalho é estudado regularmente nas yeshivot como parte integrante do estudo talmúdico diário.

Estruturalmente semelhante às Hilchot de Rabbi Isaac Alfasi (Rif), o comentário de Asher distingue-se por incorporar as opiniões de autoridades posteriores, como Maimónides, os Tosafistas e o próprio Alfasi. Uma corrente acadêmica sustenta que a obra é, na verdade, um comentário sobre o texto do Rif, e não diretamente sobre o Talmude, uma vez que invariavelmente inicia com a citação deste. Esta perspectiva, no entanto, é objeto de debate.

A influência de Rabbenu Asher na lei judaica foi tão significativa que Yosef Karo o incluiu, juntamente com Maimónides e Isaac Alfasi, como uma das três grandes autoridades (poskim) consideradas para a determinação da norma final em seu Shulchan Arukh.

Outras Obras Atribuídas

  • Orchot Chaim: Um tratado de ética e moral (musar) dirigido a seus filhos, que se tornou uma obra significativa neste gênero literário.

  • Comentários à Mishná: Escreveu comentários sobre a ordem Zeraim (com exceção do Tratado Berachot) e sobre a ordem Tohorot.

  • Tosefot ha-Rosh: Glosas no estilo dos Tosafot sobre o Talmud.

  • Um volume de responsa (respostas a consultas legais).

Nota sobre Autoria
Existe uma coleção de responsa intitulada Besamim Rosh que é falsamente atribuída a ele. Foi demonstrado tratar-se de uma falsificação do século XVIII, contendo decisões controversas que contradizem suas responsa genuínas, publicada por Saul Berlin e posteriormente exposta como fraude por estudiosos como Mordecai Benet.

Influência e Legado
Durante a era toledana da história judaica espanhola, a influência de Asher ben Jehiel e seus seguidores, que mantinham uma abordagem rabínica estritamente talmúdica, foi considerável. No entanto, a cultura intelectual judaica mais ampla permanecia profundamente atraída pela filosofia, com centros como Zaragoza exemplificando a coexistência do estudo filosófico com a erudição talmúdica nas yeshivot locais.

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