(1176) 🇩🇪 Eleazar de Worms

01-01-1176

Eleazar ben Judah ben Kalonymus de Worms (c. 1176–1238), mais conhecido como Eleazar de Worms ou pelo epíteto Rokeach ("O Perfumista"), foi um dos mais proeminentes e versáteis sábios do judaísmo asquenaze medieval, distinguindo-se simultaneamente como halachista (jurista), talmudista, cabalista e poeta litúrgico. Figura central do movimento Hasidei Ashkenaz (Piedosos da Alemanha), a sua obra e vida refletem a síntese única entre um rigoroso legalismo, um misticismo profundo e uma ética de resignação piedosa, moldada num contexto histórico de intensa perseguição.

A sua biografia é tragicamente marcada por um evento catastrófico que influenciou profundamente a sua produção intelectual. Na noite de 22 de Kislev de 1196, enquanto estudava, dois intrusos (supostamente cruzados) invadiram a sua casa, ferindo-o gravemente a ele e ao seu filho, e assassinando brutalmente a sua esposa, Dulcea, e as suas duas filhas, Belat e Hannah. Perante esta perda devastadora, a sua resposta, plasmada num comovente lamento, é um testemunho notável da sua fé: embora exprimisse uma dor profunda, justificou o julgamento divino, declarando: "O Juiz é fiel que me julgou... Hei-de abençoá-Lo por cada medida e cantar os Seus louvores". Este episódio levou-o a concentrar-se na escrita, produzindo depois uma vasta obra.

A sua contribuição intelectual divide-se em duas grandes esferas. No domínio da Halachá (lei judaica), a sua obra magna, o Sefer ha-Rokeach ("O Livro do Perfumista"), serve como um guia ético e legal para o povo comum. O título, um trocadilho baseado no valor numérico (gematria) da palavra hebraica "Rokeach" (308), que equivale a "Eleazar", reflete a sua abordagem característica. Esta obra, organizada em 497 parágrafos, combina decisões legais, costumes e as suas razões subjacentes, enfatizando conceitos como a recompensa pelas mitzvot (mandamentos) consoante o esforço despendido e a santificação do Nome Divino (Kiddush Hashem). Através dela, instituiu vários costumes que perduram nas comunidades asquenazes, como recitar "Baruch Hu u'Varuch Shemo" durante o zimun e a proibição de comer kitniyot (leguminosas) durante o Pessach.

Na esfera da Cabala, Eleazar foi um inovador sistemático. Os seus numerosos escritos místicos, muitos dos quais sobrevivem apenas em manuscrito, desenvolvem e impulsionam o misticismo associado às letras do alfabeto hebraico, utilizando extensivamente a gematria e o notarikon para desvendar segredos divinos e realizar milagres. Um dos seus conceitos teológicos mais significativos foi a sua elaboração sobre o Kavod ("Glória" Divina), que ele via como uma emanação intermediária e não criada de Deus, o aspeto knowable do Infinitamente Transcendente. A sua produção cabalística é vastíssima, incluindo comentários sobre o Sefer Yetzirah, tratados sobre os Nomes Divinos e uma obra monumental conhecida como Sodei Razayya ("Segredos dos Segredos"), que aborda desde a Criação e a Merkavah (a Carruagem Divina) até à psicologia e escatologia.

Eleazar de Worms representa, assim, a culminação do Hasidei Ashkenaz, personificando a sua busca por uma piedade que integrava a obediência legal mais estrita com uma vida interior mística intensa. A sua capacidade de, após uma tragédia pessoal indizível, continuar a ensinar o amor pela humanidade e a dedicar-se à transmissão do conhecimento, solidificou o seu legado como uma das figuras mais resilientes e influentes do judaísmo medieval, cujos ensinamentos continuam a ser estudados tanto no âmbito da lei como do mistério.

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