(1040) ?? Shlomo Yitzchaki (Rashi)
Rabbi Shlomo Yitzchaki (1040–1105), universalmente conhecido pelo acrónimo Rashi, constitui uma das figuras mais centrais e influentes da história da exegese judaica. Nascido em Troyes, na região da Champanha, no norte de França, a sua obra monumental – comentários abrangentes sobre quase todo o Tanakh (Bíblia Hebraica) e sobre a maior parte do Talmude Babilónico – tornou-se um pilar indelével do estudo judaico, moldando a compreensão textual para eruditos e principiantes durante quase um milénio.

A sua formação académica decorreu nas prestigiadas yeshivas da Renânia alemã, em Worms e Mainz, onde estudou com discípulos diretos de Rabbeinu Gershom de Mainz. Ao regressar a Troyes, Rashi não só liderou o tribunal rabínico local (beth din) e fundou a sua própria yeshiva, como também começou a responder a centenas de consultas haláchicas (responsa), demonstrando uma profunda erudição e um agudo senso prático. O seu contexto histórico foi marcado pela violência das Cruzadas, que atingiu as comunidades judaicas do Reno em 1096, um evento trágico que o levou a compor selichot (poemas penitenciais) comoventes que ainda hoje são recitados.
A contribuição mais perene de Rashi reside nos seus comentários. O seu trabalho sobre a Torá (o Pentateuco) caracteriza-se por uma busca meticulosa do peshat, o sentido simples e literal do texto. Com um estilo conciso e uma clareza incomparável, ele sintetiza séculos de tradição midráshica, selecionando e adaptando interpretações rabínicas anteriores para iluminar o significado directo das palavras, frequentemente elucidando termos obscuros através de traduções para o francês antigo (la'az), o que oferece um vislumbre inestimável da linguagem e cultura da época. No entanto, a sua abordagem não é meramente literal; ele integra habilmente o derash (a interpretação homilética) quando este serve para elucidar o texto, afirmando que o seu objetivo era apresentar o sentido simples e "as agadot que explicam as palavras das Escrituras de um modo que com elas se coaduna".
No domínio talmúdico, o seu comentário foi uma obra revolucionária. Antes de Rashi, o estudo do Talmude era um empreendimento esotérico, acessível apenas através da tradição oral directa de um mestre. O seu comentário, que acompanha praticamente cada palavra e frase, fornece a pontuação, a estrutura lógica dos argumentos e explicações claras dos conceitos, efetivamente "democratizando" o acesso ao texto complexo do Talmude. Este trabalho permitiu que qualquer estudante talentoso, independentemente da sua localização geográfica, pudesse embarcar no estudo independente do Talmude.
O legado de Rashi é imensurável. Desde a primeira impressão do Talmude no século XVI, o seu comentário tem sido incluído em todas as edições, ocupando um lugar de honra na página. A sua influência estendeu-se para além do mundo judaico, impactando exegetas cristãos como Nicolau de Lyra, que, por sua vez, influenciou Martinho Lutero. As suas três filhas, Yocheved, Miriam e Rachel, casaram com os seus discípulos mais brilhantes, dando origem a linhagens de Tosafistas (comentadores medievais que sucederam a Rashi) que dominaram o cenário rabínico ashkenazita nas gerações seguintes, como os seus netos Rashbam e Rabbeinu Tam. Até hoje, o estudo do "Chumash com Rashi" é um ritual semanal incontornável para judeus em todo o mundo, e a sua herança permanece como a pedra angular da erudição e da educação judaicas.